Mosteiros de montanha em Portugal — os antigos locais religiosos perto da Serra da Estrela que mantiveram registos durante mais tempo do que qualquer instituição que lhes tenha sucedido.
Portugal, enquanto entidade política, foi fundado em 1143. Vários dos mosteiros das regiões montanhosas que rodeiam a Serra da Estrela já contavam com vários séculos de existência nessa altura. A Abadia de Lorvão, no distrito de Coimbra, na extremidade ocidental do território montanhoso, remonta, segundo os registos, ao final do século IX — um período em que o território ainda era disputado entre reinos cristãos e muçulmanos, e as comunidades monásticas funcionavam como as principais instituições de arquivo, educação e continuidade cultural na região.
A Abadia de Nossa Senhora de Lorvão teve origem como um mosteiro beneditino, fundado por volta de 880. No século XII, transformou-se num convento cisterciense para mulheres e foi enquanto casa cisterciense que produziu os manuscritos iluminados pelos quais se tornou conhecida — um trabalho meticuloso e detalhado, feito à mão, numa época em que o scriptorium do mosteiro era um dos centros mais importantes da cultura escrita em todo o território. Os manuscritos sobrevivem até hoje. A comunidade que os produziu foi dissolvida em 1887, quando o Estado português suprimiu todas as ordens religiosas remanescentes. Os edifícios foram convertidos numa instituição psiquiátrica. Desde então, foram restaurados e abertos ao público.
O Convento de Cristo, em Tomar, a nordeste da Serra da Estrela, foi fundado pelos Cavaleiros Templários no século XII e posteriormente transferido para a Ordem de Cristo — a organização portuguesa que sucedeu aos Templários após a sua dissolução em 1312. O convento serviu de sede à Ordem de Cristo durante séculos, e foi a partir de Tomar que grande parte do financiamento e da organização da expansão marítima portuguesa foi conduzida nos séculos XV e XVI. É um Património Mundial da UNESCO. A janela manuelina na sua sala capitular é uma das peças mais elaboradas de decoração arquitetónica em Portugal — uma estrutura construída para registar a importância daquilo que a Ordem acreditava estar a fazer.
O que os mosteiros de montanha de Portugal têm em comum não é a arquitetura nem a ordem religiosa, mas sim a função: foram construídos para preservar coisas. Os manuscritos, os registos jurídicos, os levantamentos topográficos, o conhecimento agrícola, as tradições orais que foram registadas por escrito pela primeira vez dentro das suas paredes — estas instituições existiam para garantir a continuidade ao longo das gerações numa paisagem onde essa continuidade nunca estava garantida.
A dissolução das ordens religiosas em 1834 pôs fim à função institucional da maioria dos mosteiros portugueses através de um único ato legislativo. O que sobreviveu foi aquilo que já tinha sido copiado, catalogado e distribuído — os registos que tinham saído dos edifícios antes de estes mudarem de proprietário. O resto dependia do que os novos proprietários decidissem preservar, o que nem sempre era muito.
Lorvão foi transformado numa instituição psiquiátrica. A igreja cisterciense passou a servir de capela para os doentes. O claustro permaneceu. O arquivo — o que sobreviveu — foi transferido para os acervos do Estado. Os manuscritos iluminados encontram-se em Lisboa. O edifício fica em Lorvão. A comunidade que ligava os dois está ausente há quase duzentos anos.
O Arquivo de Fort Kael mantém um registo dos locais religiosos dentro da sua jurisdição territorial — não como instituições religiosas ativas, mas como marcos arquitetónicos com histórias conhecidas. Várias entradas referem edifícios que mudaram de função várias vezes: uma capela que se tornou um depósito de abastecimento, um refeitório que se tornou uma sala de arquivos, um claustro que se tornou uma área de patrulha. A classificação em cada caso é a mesma: «estrutura intacta, função original descontinuada, utilização atual temporária, aguardando reatribuição». Algumas destas entradas estão datadas. A reatribuição ainda não ocorreu.