Real Serra da Estrela · Registo de Povoamento · ASHWANA World — casas de pedra, abandonadas desde uma época que já ninguém se lembra bem de quando, e sem que se saiba ao certo porquê.
Ao longo da Serra da Estrela, doze aldeias históricas situam-se junto à antiga fronteira com Espanha. Algumas ainda têm habitantes. A maioria tem muito menos do que tinha antigamente. As casas de pedra no centro destas aldeias são frequentemente as primeiras a ficar desertas — as famílias mudam-se para edifícios mais recentes nas proximidades e o núcleo antigo, a parte com as paredes mais antigas e a história mais rica, fica de pé, vazio por dentro.
Mais para o interior da serra, na Serra da Freita, logo a seguir ao maciço da Estrela, existe uma aldeia chamada Drave. Não há estradas que lá cheguem. Não há eletricidade, nem ligação à rede de água, nem rede móvel na maior parte do tempo. Está desabitada há quase vinte anos. A caminhada até lá demora horas, ao longo de um trilho que outrora era o percurso diário das pessoas que lá viviam. Os escuteiros ainda acampam lá, de vez em quando. Fora isso, reina o silêncio.
As razões não são dramáticas. Os jovens partiram em busca de trabalho e não voltaram. A agricultura deixou de render o suficiente para que se mantivessem na região. A população envelheceu e, por fim, já não havia pessoas suficientes para manter as rotinas — aquela pequena manutenção diária que faz com que uma aldeia continue a ser uma aldeia, em vez de uma ruína.
O que fica para trás não é destruição. É o abandono em câmara lenta — uma casa com a porta ainda nas dobradiças, uma capela com o sino ainda na torre, um muro de terraço que continua a conter a mesma encosta que continha há cem anos, sem que já haja ninguém a passar por ele.
ASHWANA não inventou a ideia de um lugar que se esvazia sem que ninguém tenha decidido que assim devia ser. Foram as montanhas que lhe ofereceram isso de graça. Uma casa não se transforma numa ruína num só dia. Transforma-se lentamente, através de uma centena de pequenas ausências, até que a ausência seja a única coisa que resta.
Os registos de pessoal do Fort Kael registam as saídas individualmente — um nome, um destino, uma data. Lidas uma a uma, cada entrada parece normal. Uma transferência. Uma reforma. Um regresso à família nas planícies. Só quando o registo é lido na sua totalidade, ao longo dos anos, é que o padrão se torna visível: certos postos periféricos nunca foram repovoados. Não foi dada qualquer ordem para os abandonar. Simplesmente deixaram de aparecer na rotação.
Ninguém apresentou um relatório a indicar que a linha de vigilância do norte já não estava a ser mantida. A ausência de um relatório foi, afinal, o próprio relatório.