Artesanato tradicional da Serra da Estrela · Registo de materiais · ASHWANA World — o artesanato que ainda é feito à mão nas aldeias de montanha e onde o encontrar.
O Burel é o artesanato por excelência da Serra da Estrela — um tecido de lã de trama densa, produzido exclusivamente a partir da lã da ovelha da Bordaleira, a raça autóctone da serra. A sua impermeabilização é conseguida através de compressão mecânica, e não de tratamento químico: após a tecelagem, o tecido é passado por uma máquina de bater que bate e escaldou a lã até que as fibras se compactem, formando uma superfície que repele a água em vez de a absorver. O processo demora entre quatro a cinco horas. Não sofreu alterações fundamentais desde a época medieval.
A Fábrica de Burel em Manteigas, fundada em 2010 por Isabel Dias da Costa e João Tomás nas instalações restauradas de uma fábrica de lã do século XIX, é o local mais acessível para comprar burel. A fábrica conta com quarenta mestres artesãos — cardadores, fiandeiros, tecelões, acabadores e costureiras — cujo conhecimento do processo não se encontra em nenhum manual. Foi-lhes transmitido na oficina, através da demonstração prática, ao longo do tempo. A fábrica produz mantas, capas, sacos e artigos decorativos, e faz envios para todo o mundo.
No caso de uma empresa mais pequena e de longa tradição: a Ecolã, uma empresa familiar em Manteigas gerida pela família Clara há três gerações, produz burel através de um processo inteiramente artesanal e ecológico, sem produtos químicos. João Clara, que gere o negócio, confeciona capas de pastor, cobertores e tecido ao metro nas cores naturais da lã da Bordaleira — bege claro, cinzento e castanho escuro. Sem corantes adicionados. O tecido assemelha-se à montanha de onde provém.
O mel produzido na Serra da Estrela é classificado como mel de montanha ao abrigo da legislação portuguesa — uma designação que reflete a origem botânica específica do néctar, proveniente da urze, da lavanda e das flores silvestres do planalto, em vez de provir de terras agrícolas cultivadas. O sabor é mais intenso, mais complexo e menos doce do que o do mel comum. A cor é mais escura. A textura varia consoante a estação do ano e a altitude.
O mel da Serra da Estrela é vendido nos mercados locais de toda a região — em Manteigas, Seia, Gouveia e Covilhã — e nas lojas dos produtores artesanais que mantêm colmeias no planalto. Procure o mel com a indicação «mel de montanha», proveniente de produtores da zona do Parque Natural da Serra da Estrela. A qualidade varia consideravelmente de produtor para produtor. O melhor é produzido por apicultores que deslocam as suas colmeias sazonalmente, acompanhando o ciclo de floração das plantas do planalto.
A tradição do linho das regiões da Beira Alta e da Beira Baixa — as zonas circundantes à Serra da Estrela — é uma das mais antigas tradições têxteis de Portugal. Toalhas de mesa, guardanapos e painéis decorativos bordados à mão são produzidos nas aldeias da região, utilizando padrões transmitidos de geração em geração no seio das famílias. Os desenhos são geométricos, florais e, ocasionalmente, figurativos, trabalhados com fios coloridos sobre um fundo de linho branco ou natural.
Este ofício é praticado em casa, e não em fábricas. As melhores peças encontram-se nos mercados locais, nas lojas das cooperativas de artesãos nas cidades maiores e, ocasionalmente, diretamente junto dos produtores nas aldeias mais pequenas. Uma toalha de mesa de linho bordada à mão da região da Beira não é uma lembrança. É um testemunho de uma tradição que se mantém ininterruptamente há vários séculos, nas mesmas aldeias, utilizando os mesmos padrões e praticada pelas mesmas famílias.
A olaria negra de Bisalhães — olaria negra de Bisalhães — é produzida na aldeia de Bisalhães, perto de Vila Real, na região de Trás-os-Montes, a norte da Serra da Estrela. Foi-lhe concedido o estatuto de Património Cultural Imaterial da UNESCO em 2016. A cerâmica é fabricada sem torno, utilizando técnicas de modelagem manual que antecedem a utilização do torno na cerâmica europeia. É cozida numa fossa aberta com lenha de pinheiro a arder lentamente, o que confere à superfície a sua cor preta através da absorção de carbono. Não é aplicado qualquer esmalte. A superfície é polida à mão antes da cozedura.
O resultado é uma cerâmica que não se assemelha a nada produzido por meios industriais ou semi-industriais. As peças são funcionais — taças, jarros, panelas — mas a superfície tem uma qualidade que nenhum processo fabril consegue reproduzir. A cerâmica de Bisalhães pode ser encontrada em lojas de artesanato por todo o norte de Portugal e, cada vez mais, online. A própria aldeia conta com um pequeno número de produtores ativos que recebem de braços abertos os visitantes.
A Divisão de Cultura Material de Fort Kael mantém registos de todos os bens significativos produzidos ou comercializados no território montanhoso. Capas de Burel, cobertores, mel, linho tecido, cerâmica — todos estes itens constam nos registos de distribuição e nos livros de contabilidade comercial do Arquivo. As quantidades. As estações do ano. As rotas por onde as mercadorias chegavam à fortaleza a partir dos povoados situados a baixos.
O que os registos não contêm é o conhecimento por trás dos produtos. O processo de fabrico do burel. A família nas mãos da qual os padrões de linho foram preservados. O apicultor que sabia quais as flores do planalto que produziam o mel mais rico em cada ano. Esse conhecimento estava nas mãos das pessoas que realizavam o trabalho. Nunca lhes foi pedido. O Arquivo recebeu o produto. O conhecimento permaneceu onde estava — nas mãos e na memória das pessoas que criavam as coisas, nas aldeias que a Divisão de Levantamento cartografou, mas nunca compreendeu totalmente.
ASHWANA — o primeiro livro da série «The Fractured Elden» — já está disponível na Amazon, Apple Books, Kobo e Google Play. O arquivo ainda não foi encerrado.